Produtividade tem queda forte no 1º tri

 Produtividade tem queda forte no 1º tri

Recuo de 1,7% do indicador em relação ao mesmo período de 2019 já reflete o impacto da pandemia.

A produtividade na economia brasileira caiu com força no primeiro trimestre deste ano, recuando 1,7% em relação ao mesmo período de 2019, a maior queda desde a baixa de 2,6% do quarto trimestre de 2015. O tombo já reflete o impacto da pandemia da covid-19, que agravou o quadro de retração da produtividade total dos fatores (PTF) iniciado no começo de 2018, segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

“A paralisação da economia decorrente da pandemia resulta em perdas imediatas na eficiência do processo produtivo, com consequente redução da PTF”, diz o economista Fernando Veloso, pesquisador do Ibre/FGV. “No Brasil, como as medidas de distanciamento social só começaram a ser implementadas na segunda quinzena de março, os efeitos da pandemia sobre a produtividade não foram plenamente captados no indicador do primeiro trimestre.” Para ele, a PTF terá mais uma queda forte no segundo trimestre, provavelmente maior que a do primeiro.

Medida da eficiência com que os fatores capital e trabalho se transformam em produção, a PTF tem registrado desempenho muito ruim no Brasil, apontando dificuldades para um crescimento a taxas mais altas de modo sustentado. Com o fim do bônus demográfico (o período em que a população em idade ativa cresce acima da população total), “a única forma de aumentar a renda per capita do Brasil nas próximas décadas será por meio da elevação da produtividade”, destacam, em nota, Veloso e os economistas Silvia Matos e Paulo Peruchetti, também pesquisadores do Ibre/FGV.

Na recessão que durou do segundo trimestre de 2014 ao quarto trimestre de 2016, a PTF teve um desempenho muito negativo, recuando em todos os 11 trimestres do período de retração econômica. Em 2017, a produtividade subiu, crescendo a uma média de 0,45% por trimestre. Em 2018, porém, o indicador voltou ao vermelho, e desde então já amargou nove trimestres consecutivos em queda.

Veloso observa que esse comportamento é de fato atípico. “Quando comparamos com outros períodos recessivos e de recuperação desde o fim da década de 1990, observamos que a queda da PTF durante a recessão mais recente de 2016 foi bem maior que em episódios anteriores”, diz ele. Além disso, a retomada foi bem menos vigorosa na comparação com períodos que se seguiram a recessões anteriores, especialmente as taxas negativas registradas desde o primeiro trimestre de 2018, destaca Veloso.

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Para ele, isso reflete em grande medida o elevado nível de incerteza da economia brasileira no últimos anos. Isso fica claro no resultado do Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) do Ibre/FGV, que está em patamar muito elevado desde o segundo semestre de 2015, nota Veloso. “Em uma situação em que não existe clareza sobre a direção da política econômica, os empresários postergam investimentos e contratações formais. Como as empresas formais são mais produtivas que a informais, o aumento da informalidade nos últimos anos provavelmente teve consequências negativas sobre a PTF.” Para piorar o indicador de incerteza do Ibre/FGV teve um salto enorme em março e abril, com a eclosão da pandemia. Saiu de 115,1 pontos em fevereiro para 210,5 pontos em abril, recuando em maio e também na prévia de junho, mas segue muito alto, em 187,2 pontos.

“Existem fortes razões para acreditar que ela permanecerá acima do nível já elevado que prevaleceu desde o segundo semestre de 2015, por causa dos riscos referentes à situação fiscal, ao ambiente de negócios e de natureza política”, diz Veloso, que vê um futuro pouco animador para a economia brasileira. “No pós-pandemia, provavelmente teremos um padrão semelhante ao observado no período de recuperação da recessão de 2014-2016, caracterizado por recuperação lenta da economia, baixo investimento, informalidade elevada e produtividade em queda. Apenas a combinação de estabilidade política com retomada da agenda de reformas poderá alterar esse quadro”, avalia ele.

Na visão de Veloso, a reforma tributária e a reforma administrativa são especialmente relevantes. “Mas a agenda é ampla, incluindo maior abertura econômica, privatizações e concessões de infraestrutura, além da implementação de medidas importantes na área de crédito, como a operacionalização do cadastro positivo e o open banking”, afirma o economista.

Sem aumentar a produtividade, o Brasil estará condenado a crescer pouco. “O bônus demográfico contribuiu para que a renda per capita crescesse acima da produtividade durante muitos anos, mas ele se esgotou. Outros fatores, como o aumento da taxa de participação na força de trabalho [a parcela da população em idade ativa que está empregada ou procurando emprego], também permitiram que a renda per capita crescesse a taxas superiores às da produtividade, mas esse fator também contribuirá menos nas próximas décadas”, diz Veloso, lembrando que a produtividade avança a um ritmo fraco desde os anos 1980. “Portanto, a única forma de melhorar o bem-estar da população daqui em diante será fazer com que os trabalhadores se tornem mais produtivos.”

No estudo, Veloso, Silvia e Peruchetti lembram que uma das medidas mais amplamente utilizadas para tratar de ganhos de eficiência é a produtividade do trabalho medida pelo valor adicionado gerado por trabalhador ou por hora trabalhada. “Essa variável, no entanto, não permite avaliar o grau de eficiência com que são utilizados os recursos produtivos”, escrevem eles. “Um indicador que permite essa análise é a produtividade total dos fatores, que leva em consideração não somente a produtividade da mão de obra, mas também a eficiência do uso de capital.”

Veloso diz que, segundo o indicador do Ibre/FGV de produtividade do trabalho trimestral, a produtividade por hora trabalhada teve queda de 1% no primeiro trimestre de 2020 em relação ao mesmo trimestre do ano passado. “Nossas estimativas preliminares também indicam forte queda da produtividade do capital no primeiro trimestre”, afirma ele. A nota sobre a evolução da PTF será publicada no site do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do Ibre/FGV, batizado em homenagem ao economista, um dos principais estudiosos do assunto no Brasil, que morreu em 2017.

Por Valor Econômico

Via Instituto Aço Brasil

Editor MDR

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