Após recuperação em 2020, indústria pode voltar ao ‘velho normal’

 Após recuperação em 2020, indústria pode voltar ao ‘velho normal’

Perspectiva de curto prazo é positiva, mas cenário a partir do 2º trimestre deve ser mais difícil.

Puxada pela mudança temporária de hábitos de consumo, a produção da indústria brasileira teve uma recuperação incomum no segundo semestre de 2020, após o tombo inicial provocado pela pandemia. O prognóstico dos especialistas para 2021, contudo, é que o setor volte a um cenário de perda de dinamismo que já ocorria antes do surgimento do coronavírus.

Com os estoques em baixa, a produção da indústria tem um quadro positivo de curto prazo por causa da necessidade de recomposição do nível de produtos armazenados. Mas, a partir do segundo trimestre em diante, o setor deve sentir mais os efeitos negativos do desemprego, da queda da renda e do recrudescimento da covid-19, fatores que podem conter o consumo das famílias.

No lado positivo estão as perspectivas de aumento para as exportações industriais, por causa da esperada recuperação da economia global, e a vacinação contra a covid-19, embora atrasada no Brasil em relação a outras nações.

A mediana das projeções dos economistas para a produção industrial é de crescimento de 5% em 2021, segundo o boletim Focus, do Banco Central, o que não recompõe totalmente a perda estimada em 5% no ano passado. No acumulado do ano até outubro, dado mais recente divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção industrial registra queda de 6,3%. “Só vamos virar a página da crise quando resolvermos o problema sanitário, com a vacinação da população”, diz Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

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Depois de cair 9,4% em março e 19,5% em abril, a produção industrial emendou seis meses consecutivos de crescimento. “O ritmo de recuperação foi bastante surpreendente e está num contexto de estímulos bem maiores que os estimados inicialmente”, afirma o economista Rodrigo Nishida, da LCA Consultores, referindo-se aos programas de transferência de renda (auxílio emergencial), de manutenção do emprego (BEm) e medidas de crédito adotadas pelo governo para conter a crise provocada pela pandemia. Ele lembra que o universo de trabalhadores que recebeu o auxílio – cerca de 66 milhões – foi bem maior que o esperado.

Enquanto milhões de cidadãos que perderam renda usaram o auxílio para comprar produtos básicas, como alimentos e remédios, outra parte reduziu gastos com serviços e consumiu mais itens para casa como eletrodomésticos, eletroportáteis e material de construção. “Houve uma transferência dos gastos com serviços para bens industriais”, lembra Nishida. Nesse meio tempo, a indústria viveu uma falta generalizada de insumos como aço e plástico, gerada pelo aumento de demanda e interrupção das cadeias de fornecimento pelo mundo por causa da pandemia.

Para Cagnin, o fato de o país nunca ter sido capaz de fazer um “lockdown” efetivo ajudou a recompor o nível de atividade. Ele observa que a retomada é incompleta, com segmentos como calçados, vestuário e veículos ainda sem alcançar o nível pré-pandemia. O setor, diz, ainda cumpre protocolos de segurança sanitária que implicam mudanças nas linhas de produção, que, assim como a falta de insumos, afetam a capacidade de oferta.

Com isso, depois da forte alta do terceiro trimestre, a indústria deve ter registrado desaceleração no fim de 2020, como já demonstrado pelo dado da produção de outubro, que cresceu apenas 1,1% sobre o mês anterior, após altas de 8,6%, 3,4% e 2,8% entre julho e setembro. Dados da sondagem mensal de confiança da Fundação Getulio Vargas (FGV) também apontam a mesma direção. “Entre os consumidores, já houve piora das expectativas e na indústria começa a haver uma reversão”, afirma Luana Miranda, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre-FGV). Na sondagem de dezembro, o indicador de confiança do setor voltou a subir, mas numa magnitude menor que nos meses anteriores, assim como os subindicadores de situação atual e de expectativas. Mas o nível de 114,9 pontos ainda foi o maior em dez anos.

A redução dos estoques vai permitir que a indústria continue em alta no início de 2021, mesmo num cenário de menos estímulos. “O setor automobilístico, por exemplo, chegou ao último mês de 2020 com os estoques mais baixos da série da Anfavea [entidade que reúne as montadoras]”, observa Nishida, da LCA. Depois disso, a indústria deve voltar à rotina de problemas estruturais que dificultam uma expansão além do crescimento cíclico, afirma Nishida. A LCA estima aumento de 7,1% na produção industrial de 2021, após queda de 4,7% em 2020.

Cagnin diz que parte das empresas reduziu estoque para fazer caixa. “Indicadores da CNI mostram que a maior parte dos ramos continua com estoques abaixo do nível planejado”, afirma ele. De acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em novembro, apesar das seguidas altas na produção, os estoques continuaram em queda e abaixo do nível planejado em novembro no setor em geral, refletindo crescimento das vendas acima da produção. O indicador de estoque efetivo em relação ao planejado foi de 45,8. Números abaixo de 50 indicam estoques aquém do desejado. Assim, o economista também espera um aumento de produção para recomposição de estoques além de alguma demanda adicional. Os gargalos no fornecimento de insumos devem ser resolvidos ao longo do primeiro trimestre, prevê.

O fator mais preocupante no curto prazo é o fim do auxílio emergencial, diz Cagnin. “Todos os órgãos multilaterais têm falado da importância dessa iniciativa para dar consistência ao processo de recuperação”, em meio a um quadro de recrudescimento da pandemia e desemprego. Outro fator é a vulnerabilidade do país quanto ao fornecimento de vacinas para a população, que pode chegar ao fim do primeiro semestre com um pequeno número de pessoas vacinadas. “Todas essas dúvidas podem jogar um balde de água fria na confiança e nas expectativas”, diz. Para Luana Miranda, do Ibre, alto nível de incerteza e o recrudescimento da pandemia estão entre as principais questões para 2021. “Como ficará a economia no primeiro semestre sem um grande contingente de pessoas vacinado e com a renda deteriorada?”, questiona a economista, para quem a indústria vai sofrer o impacto da redução dos estímulos e do mercado de trabalho fragilizado. “Toda essa incerteza deve levar a adiamento do investimento, de contratações.”

Por outro lado, a expectativa de crescimento da economia mundial e o câmbio ainda desvalorizado devem ajudar as exportações de produtos industriais em 2021, um movimento que começou no fim de 2020. Em outubro e novembro, as vendas para a Argentina, importante mercado para a indústria brasileira, voltaram ao azul depois de mais de um ano. “Nesses meses, as vendas de bens duráveis para a Argentina ajudaram a indústria de transformação”, diz Luana. “O câmbio se desvalorizou muito e pode estar ajudando nessa retomada lenta, gradual. Vemos também um cenário internacional mais favorável, com forte reversão da aversão ao risco. O ambiente melhorou para os emergentes e isso pode gerar impacto na demanda.”

Por Valor Econômico

Via Instituto Aço Brasil

Editor MDR

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